Curb Your Enthusiasm!

"Curb Your Enthusiasm, boy!". Frase proferida por Susan a George, na série Seinfeld. Posteriormente, seria usada por Larry David para definir a sua atitude perante a vida...

quarta-feira, agosto 10, 2005

Acordes de quatro noites de verão




O Festival do Sudoeste cresceu. Não foi apenas o mais concorrido de sempre, foi o mais maduro. Foi música e diversão, e foi também muito mais do que isso. Foi organizado, eficaz, muito variado, e assumiu-se com as dimensões de um verdadeiro festival ibérico. E com tanta escolha, cada um teve o festival que quis.
Entre 4 e 7 de Agosto, as atenções dividiram-se por três palcos distintos, com exigências diversas. Esta coexistência foi o elemento mais positivo do modelo renovado da edição deste ano. Três espaços diferentes a funcionarem em simultâneo, em que a ideia de complementaridade se sobrepõe claramente à de estratificação.

O palco principal não surpreendeu pela abrangência mainstream, e arrastou para si a multidão. Mas, pela primeira vez em 9 anos de sudoeste, os outros palcos foram de facto uma alternativa. Mais do que isso, foram em muitos momentos a atracção mais aliciante.
O palco Positive Vibes foi festa constante. Todos os dias, sem excepção, esteve repleto de gente que dançou ao ritmo do reggae até à exaustão. Ao mesmo tempo, e bem ali ao lado, o palco Planeta Sudoeste alimentava os gostos mais exigentes. Nunca esteve menos do que a rebentar pelas costuras, cheio de pessoas deliciadas pela possibilidade de uma alternativa real.

Ladytron, Devendra Banhart, Josh Rouse, Mylo ou The (international) Noise Conspiracy, foram alguns dos nomes que preencheram o “planeta” da variedade. Pode-se mesmo dizer que houve pouco espaço para tanta oferta, e ainda menos espaço para tanta procura.
Josh Rouse foi melodioso e centrado, Devendra foi para lá de original, e os The (international) Noise Conspiracy agitaram tudo o que seria possível agitar. São alguns exemplos de um espaço que superou todas as convenções e que chegou para além das expectativas, de uma forma mais do que positiva.
Houve mesmo tempo para o humor…e que tempo bem passado. “Isto não é rock’n’roll, é galhofa à antiga”. Assim se assumiram os Gato Fedorento. Pouco importou que não fosse rock’n’roll, ou qualquer outro género musical. Na maior enchente da noite de abertura, a multidão gritou as frases dos sketches como se de refrões de música se tratassem. Uma aposta diferente, que resultou o melhor possível.
Mas como é óbvio, o palco principal não deixa de ser o palco principal. É aquele que reúne os maiores aglomerados, aquele que chama mais pessoas para o festival. E, independentemente dos gostos, os nomes sonantes não faltaram.

Sean Paul não convenceu, ainda que tenha divertido um público que queria mesmo divertir-se na primeira noite do festival. Na sexta-feira, os Oasis cumpriram o reportório, para êxtase dos seus fiéis seguidores. Porém, foram demasiado frios e distantes, resultando como soporífero para os restantes presentes. Quando os kasabian encheram o palco de ritmo e energia, restava pouco ânimo para os acompanhar.
A surpresa foram os Da Weasel. Foram a prova viva do potencial de sucesso da música portuguesa em festivais. Estiveram longe de receber o maior cachet do cartaz, ou mesmo da noite de sexta-feira. Mas a multidão foi toda deles. Um aglomerado apenas comparável ao conseguido por Ben Harper. Impressionante a adesão das pessoas ao espectáculo e impressionante a forma como agarraram a oportunidade com unhas e dentes.
A noite de Sábado foi a mais longa. Foi também a mais cheia. Milhares de pessoas, espalhadas por todos os cantos. Não houve um espaço de sudoeste que não estivesse preenchido. No palco Planeta Sudoeste o desfile de requinte foi ininterrupto, e no palco principal faltou tempo para tantas emoções.
Ben Harper encantou os milhares que se deslocaram para o ver, e teve com certeza muita dificuldade em ver até onde ia aquela multidão. Mas a noite não foi só dele. Os Humanos encheram o recinto de arrepios, e tiveram uma despedia em grande. Pela noite dentro ecoaram os sons de dança. Primeiro com Underworld e depois com Fatboy Slim, que contou com a companhia de quem resistiu até às 4h da manhã para vibrar com a sua batida.


Domingo foi, sem dúvida, a noite da ressaca. Menos pessoas, menos energia e a procura sintomática dos outros palcos. O cartaz do palco principal foi o menos aliciante de todas as noites de festival. Apenas os Korn conseguiram reunir uma multidão significativa, abanando um pouco a calma que tomou conta da noite de encerramento do Sudoeste deste ano.

Para lá da música
A organização diz que estiveram no sudoeste cerca de 30 mil pessoas por dia. Estes números, a confirmarem-se, são o espelho da maior enchente de sempre. Mais do que um festival, o Sudoeste deste ano foi uma romaria.
Mesmo antes do festival começar, parecia não haver espaço para nem mais uma tenda. O parque de campismo improvisado no meio do pinhal atingiu o limite máximo. No entanto, não parava de chegar gente. E o espaço que não havia, inventou-se. Apareceram tendas montadas nos sítios mais incríveis e nas condições mais inesperadas.
O mar de tendas foi o primeiro sintoma daquilo que, por essa altura, já não era difícil de adivinhar. A peregrinação em massa para a Zambujeira do Mar foi uma realidade desde a véspera. Os restaurantes não tinham uma mesa vaga, na praia não havia lugar para estender mais toalhas e no recinto não houve actividade que não fosse um sucesso de afluência.
Os stands dos patrocinadores tinham todo o tipo de ofertas e organizaram jogos variados. Desde os carrinhos de choque aos penteados radicais, passando pelo voleibol de praia, todos podiam participar sem custos extra, se estivessem com disposição para esperar um pouco nas muitas filas que se iam formando.
Ainda havia a possibilidade de ganhar qualquer coisa. Para ganhar dois telemóveis, por exemplo, bastava encontra o par no meio daqueles milhares de pessoas. Viu-se por lá a Santa Isabel a gritar pelo seu D.Dinis, um Popeye desesperado com o nome da Olívia pintado nas costas, e um Tintim que chamava o Milu por um microfone.
E para ajudar na recolha do lixo, nada como promover os copos vazios como moeda de troca. 20 copos por uma cerveja, 40 por uma volta no touro mecânico, e 60 por uma consulta tarot ou por uma boa massagem. Foi ver toda a gente a apanhar lixo do chão de livre e espontânea vontade, e um recinto mais limpo do que nunca.
Outra das possibilidades seria entregar 20 copos e ganhar o direito de plantar um pinheiro. Apesar de 20 copos serem também o “preço” de uma cerveja, bebida muito apreciada pelos festivaleiros, cerca de 500 pessoas optaram por se aliar à natureza e deixar a cervejinha para mais tarde. E o sinal de que o amor no festival não existe apenas pelo ambiente, foram os 40 mil preservativos distribuídos pela Harmony.
“O Sudoeste? É para baixo e para a direita.”. É simples a forma como os Gato Fedorento explicam o caminho. E ainda que fosse complicado, tendo em conta tudo o que por lá se passou este ano, de certeza que toda a gente arranjaria forma de lá chegar.

Catarina Homem Marques
Fotos por Rui Gusmão